Eu comecei a ficar viciado por The Smiths. É uma banda realmente
boa, e me ajuda a relaxar a maioria das vezes.
Por isso fui ao shopping comprar novos CDs, mas me arrependi de ter
ido assim que a vi.
Eu estava lendo o repertório do álbum The Queen is Dead quando de
repente vi quase todos os CDs caindo no chão com um ruído extravagante. Ao meu
lado, me encarando com um olhar perdido, estava aquela garota.
- Me desculpe! – Falou. – Eu...
- Tudo bem. – A olhei friamente, e a ajudei a pegar alguns CDs apenas
por educação.
- Obrigada. – Disse.
- Você gosta de Smiths? – Perguntei, com falsa curiosidade.
- Sim... – Disse, e olhei para os CDs que antes estavam em suas
mãos.
- Linkin Park, AC/DC, Guns, Artic
Monkeys... Você tem bom gosto.
- Obrigada. – Repetiu.
- Não precisa dizer obrigada todas as vezes que falo com você.
- Me desculpe...
- Nem “me desculpe” todas as vezes que falo com você.
- Okay...
Peguei os últimos CDs restantes e lhe entreguei. Ela me olhou,
agradecida, mas permaneci sério.
- Está esperando alguém? – Perguntei.
- Sim... Minha mãe.
Uma menina do Ensino Médio passeando com a mãe... Em Salvador isso
era realmente raro. Geralmente as meninas preferiam passear em grupos de
amigas.
- Qual o seu nome? – Ela me perguntou.
- Matheus. E o seu?
- Melissa.
- Prazer, Melissa. Quantos anos você tem?
- Quinze... E você?
- Dezessete. – Ouvi escapar um murmuro baixinho dela, falando “nossa”.
Olhei para seu pe.
- O que aconteceu? – Perguntei.
- Han? Ah... Foi aquele tombo que eu levei.
- Ah, sim. Melhoras.
Ela me olhou e corou levemente.
– Eu vou indo agora. Até
mais. – Fui ao caixa pagar pelo meu CD.
Olhei para trás. A menina não me encarava mais, e parecia
concentrada com o fone de ouvido ouvindo alguma musica. Dei um meio sorriso ao
ver que era o mesmo que eu comprei, The Queen is Dead.
Quando cheguei em casa, minha mãe me esperava na porta.
- Aonde foi? – Perguntou.
- Ver os resultados do vestibular.
- E?
- Passei. – Suspirei. Eu iria fazer Publicidade, nem que fosse a
única coisa que eu fizesse. Mas minha mãe, como sempre, adora controlar minha
vida e resolveu que vou fazer Odontologia. Mesmo sabendo que cuidar dos dentes
dos outros não fazia meu tipo.
Não a culpo, desde a morte do meu pai a única coisa em que ela
podia se divertir trancada em casa era cuidar da minha vida e da vida da minha
irmã.
Como sempre, me tranquei no quarto e fiquei jogando no Xbox. Era
minha única rota para fugir dos olhos tristes da minha mãe, que praticamente me
destruía quando eu via.
Um tempo depois, o meu celular tocou a melodia agitada de Na na na
(My Chemical Romance), que era o toque especial da Karina. Praticamente pulei
do tapete para atender.
- Oi, Karina.
- Mat! Venha logo para cá!
- O que foi?
- Surpresa... Venha logo!
- Okay... Já estou indo. – E desliguei.
Percebi que o dia ficou chuvoso, então peguei uma jaqueta. Eu não
ligava em molhar meu cabelo.
Perguntei-me o que havia acontecido.
O elevador subia lentamente, pois Karina morava na cobertura.
Porém, quando bati na porta, percebi o barulho de lá de dentro. Ela logo me
atendeu, praticamente pulando em cima de mim.
- Feliz aniversario de três meses, amor! – Ela me deu um beijo.
- Oh, isso...
- Não me diga que esqueceu... – Ela me olhou, contrariada, mas logo
sorriu. – Eu te perdôo. – E me deu outro beijo.
Quando entrei, percebi o que estava acontecendo lá dentro.
Uma festa. Bebidas. Que ótimo.
Perguntei-me se a tal Melissa estava lá, mas não fazia o tipo dela.
Tentei parar de pensar na Melissa e fui aproveitar. Afinal, era uma festa.
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